Redação NutriVox
Conteúdo baseado em evidências científicas
Fontes: JAMA (2008) · The Lancet Neurology (2012) · Journal of Alzheimer's Disease (2015) · Cochrane Database of Systematic Reviews (2009) · International Journal of Geriatric Psychiatry (2014) · European Psychiatry (2025)
Essas informações não substituem atendimento médico ou especialista. Verifique as informações com seu profissional de confiança antes de tomar qualquer decisão.
Ginkgo biloba é um dos suplementos mais vendidos do mundo para “melhorar a memória”. Está em farmácias, lojas de produtos naturais e até em fórmulas manipuladas que prometem turbinar o cérebro. Se você já pesquisou sobre memória e foco, provavelmente esbarrou nele.
Mas será que funciona mesmo? Ou é mais uma daquelas promessas que só existem no rótulo do frasco?
A resposta curta: depende de quem está tomando. E essa diferença muda tudo. Os dois maiores ensaios clínicos já realizados sobre ginkgo biloba e memória testaram mais de 5.900 pessoas ao longo de 5 a 6 anos. Os resultados não são o que a propaganda sugere. Vamos aos dados.
O maior ensaio sobre ginkgo e memória foi negativo
JAMA · 2008
3.069 participantes com 75+ anos foram acompanhados por 6,1 anos (mediana). Grupo ginkgo: 277 casos de demência. Grupo placebo: 246 casos. HR: 1,12 (IC 95%: 0,94-1,33; p=0,21). Nenhuma diferença estatisticamente significativa.
3.069 pessoas, 6 anos de uso: zero proteção contra perda de memória
O Que o Estudo GEM Realmente Mostrou
O GEM Study é o maior ensaio clínico já feito sobre ginkgo biloba e memória. Foram 3.069 participantes divididos em dois grupos: um tomou 240 mg de extrato de ginkgo por dia, o outro tomou placebo. O acompanhamento durou mais de 6 anos.
O resultado foi claro: o grupo que tomou ginkgo desenvolveu tantos problemas de memória quanto o grupo que tomou comprimido vazio. Não houve proteção. Na verdade, o grupo ginkgo teve numericamente mais casos, embora a diferença não tenha sido estatisticamente significativa.
Um subestudo avaliou 5 domínios cognitivos (memória, atenção, linguagem, funções executivas e habilidades visuoespaciais) nos mesmos participantes. Em nenhum dos cinco houve diferença entre ginkgo e placebo. Todos os valores de p ficaram acima de 0,05.
Se a promessa era “proteger a memória a longo prazo”, o GEM enterrou essa hipótese com dados de verdade.
O Segundo Grande Ensaio Também Falhou
Talvez o GEM tenha sido um caso isolado? O estudo GuidAge, publicado no The Lancet Neurology em 2012, testou a mesma hipótese com 2.854 participantes na França, todos com 70+ anos e queixas espontâneas de memória. Dose idêntica: 240 mg/dia de extrato padronizado (EGb 761). Duração: 5 anos.
O resultado? Praticamente o mesmo. O grupo ginkgo teve 61 diagnósticos contra 73 do placebo, mas a diferença não foi estatisticamente significativa (HR: 0,84; IC 95%: 0,60-1,18; p=0,306).
Dois mega-ensaios, quase 6 mil pessoas, mais de uma década de dados. A conclusão é a mesma: ginkgo biloba não previne perda de memória em quem está saudável.
Então Por Que Tantos Médicos Ainda Receitam?
Porque existe um cenário onde o ginkgo pode ajudar, e ele é muito diferente do que a propaganda sugere.
Quando a pessoa já apresenta comprometimento cognitivo (confirmado por avaliação clínica), o ginkgo mostra um efeito modesto, mas real, em alguns estudos. Não é milagre. Não reverte o quadro. Mas pode melhorar sintomas do dia a dia.
Uma revisão da Cochrane que analisou 36 ensaios clínicos concluiu que a evidência é “inconsistente e não confiável” para o uso geral. Porém, reconheceu que em subgrupos específicos, havia sinais de benefício.
O problema é que a comunicação sobre ginkgo mistura tudo. O suplemento que talvez ajude quem já tem um quadro instalado é vendido como se fosse um “escudo cerebral” para qualquer pessoa. E os dados não sustentam essa promessa.
O Que os Estudos Positivos Realmente Dizem
Efeito modesto em quem já tem comprometimento cognitivo
Journal of Alzheimer's Disease · 2015
Meta-análise de 9 ensaios com 2.561 participantes com comprometimento cognitivo leve ou já diagnosticado. EGb 761 (240 mg/dia) por 22-26 semanas. Melhora cognitiva: MD -2,86 pontos (IC 95%: -3,18 a -2,54). Melhora em atividades diárias: SMD -0,36 (IC 95%: -0,44 a -0,28).
Efeito real, mas apenas em quem já tem comprometimento diagnosticado
Essa meta-análise de 2015 reuniu 9 ensaios com 2.561 participantes que já tinham comprometimento cognitivo leve ou diagnosticado. O extrato padronizado (EGb 761, 240 mg/dia) por 22 a 26 semanas mostrou melhora em escalas cognitivas e em atividades de vida diária.
Outro ensaio, publicado no International Journal of Geriatric Psychiatry em 2014, avaliou 160 pacientes com comprometimento cognitivo leve e sintomas neuropsiquiátricos. Após 24 semanas, 78,8% do grupo ginkgo tiveram melhora significativa nos sintomas comportamentais, contra 55,7% do placebo (p=0,002). A velocidade de processamento cognitivo também melhorou.
Uma meta-análise mais recente, de 2025, analisou especificamente pacientes com quadros leves e encontrou efeitos significativos em cognição (p=0,04), atividades diárias (p=0,01) e qualidade de vida (p=0,02).
Ou seja: o ginkgo não é totalmente inútil. Mas funciona em um contexto muito específico que é completamente diferente do que está escrito na embalagem do suplemento da farmácia.
Dados Cientificos
Ginkgo Biloba: O Que os Dados Mostram
O Que Funciona de Verdade Para Proteger a Memória
Se o ginkgo não é a resposta para quem está saudável, o que é? A ciência aponta para um conjunto de hábitos que, combinados, oferecem proteção real:
- Exercício físico regular: alongamentos e exercícios leves pela manhã já mostram impacto na função cognitiva
- Sono de qualidade: dormir bem é um dos pilares mais bem documentados para a consolidação de memórias
- Estimulação cognitiva: leitura, jogos e desafios mentais mantêm o cérebro ativo e criam reserva cognitiva
- Alimentação adequada: nutrientes como ômega-3, colina e antioxidantes têm evidência mais consistente para o cérebro do que qualquer cápsula isolada
- Conexão social: manter relações ativas reduz o risco de perda cognitiva de forma significativa
Nenhum desses hábitos vem em frasco. E nenhum deles precisa de R$ 80 por mês em suplementos. A boa notícia é que são acessíveis e cumulativos: quanto mais você pratica, maior a proteção.
Riscos e Cuidados Com o Ginkgo
O perfil de segurança do ginkgo biloba é bom nos estudos clínicos. Não houve diferença significativa em efeitos adversos entre os grupos ginkgo e placebo nos ensaios GEM e GuidAge.
Porém, existe um alerta importante: o ginkgo pode interagir com anticoagulantes (como varfarina e aspirina), aumentando o risco de sangramento. Se você toma qualquer medicamento para afinar o sangue, converse com seu médico antes de usar ginkgo.
Outro ponto: a maioria dos suplementos de ginkgo vendidos no Brasil não usa o extrato padronizado EGb 761, que foi o testado nos estudos. Ou seja, o que está na prateleira pode nem ter a mesma composição que mostrou algum efeito nos ensaios clínicos.
O NIH (National Institutes of Health) dos EUA é direto: “Não há evidência conclusiva de que o ginkgo biloba seja eficaz na prevenção ou desaceleração do comprometimento cognitivo.” Nenhum uso é aprovado pela FDA.
Perguntas frequentes
Ginkgo biloba melhora a memória de quem está saudável?
Qual a dose de ginkgo biloba usada nos estudos?
Ginkgo biloba tem efeitos colaterais graves?
O que funciona melhor que ginkgo biloba para a memória?
O Veredito: Funciona ou É Propaganda?
As duas coisas, dependendo do contexto.
É propaganda quando vendem ginkgo biloba como escudo cerebral para qualquer pessoa. Dois ensaios com quase 6 mil participantes e mais de 5 anos de acompanhamento mostraram que o suplemento não protege a memória de quem está saudável. Ponto.
Tem algum fundamento quando usado por pessoas que já apresentam comprometimento cognitivo diagnosticado, sob orientação médica. Nesse cenário, meta-análises mostram efeito modesto em escalas cognitivas e atividades de vida diária.
O problema é que a maioria das pessoas que compra ginkgo na farmácia se encaixa no primeiro grupo, não no segundo. E para esse primeiro grupo, a ciência é clara: hábitos como uma boa rotina matinal e nutrientes específicos no café da manhã fazem mais pela sua memória do que qualquer cápsula de ginkgo biloba.
A melhor proteção para o seu cérebro não vem em frasco. Vem do que você faz todo dia.
Redação NutriVox
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Fontes: JAMA (2008) · The Lancet Neurology (2012) · Journal of Alzheimer's Disease (2015) · Cochrane Database of Systematic Reviews (2009) · International Journal of Geriatric Psychiatry (2014) · European Psychiatry (2025)
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